Jonas Malheiro Savimbi
1979
Edição da
Agência Portuguesa de Revistas

Plataforma de entendimento — a cimeira de Mombaça

Pg. 45-53 Em Novembro de 1974, por decisão tomada na conferência anual do Partido, desloquei-me a Lusaka, onde sabia que iria encontrar amigos, que tinham partilhado, na última fase da nossa caminhada de libertação nacional, dos sofrimentos e angústias por que passáramos. Estive com Kaunda, na véspera da sua viagem a Moscovo. Fi-lo ciente do nosso programa de momento, que consistia na assinatura de um tratado de cooperação com a FNLA e o MPLA, que possibilitasse uma plataforma comum de negociações com o governo português. O presidente da Zâmbia apoiou inteiramente essa nossa predisposição.

Ainda em Novembro e em Dezembro de 1974, quando a maior parte da população angolana duvidava que fosse possível criação de uma plataforma entre os três movimentos de libertação e o espectro da guerra civil pairava já sobre Angola, a UNITA conseguiu afastar, infelizmente só por algum tempo mais, todas essas dúvidas pessimistas, assinando uma plataforma de cooperação com os outros dois movimentos: em Novembro, em Kinshasa, com a FNLA; e em Dezembro, no Luso, com o MPLA.

Sem pressões de qualquer espécie, apenas após uma reunião do seu Comité Central, que decidiu unanimemente tomar essa decisão, a UNITA contribuiu para que o Neto consolidasse a sua posição como presidente do MPLA. A decisão foi anunciada por mim, num discurso que fiz no Luso, em Dezembro de 1974. Reconhecendo no Neto a direcção do MPLA, a UNITA afastava toda a tentativa de concorrência das outras duas facções daquele movimento — a de Chipenda e a de Pinto de Andrade. Fizemo-lo sem nenhuma visão oportunista, mesmo sabendo que o MPLA estava a preparar acções militares para nos dizimar. É que os dirigentes da UNITA sabiam que a única maneira de servir os interesses de Angola era tomar em consideração a carreira de militância do Neto e daqueles que, em Luanda, haviam aderido ao MPLA ortodoxo. Além disso, era uma contribuição para que as negociações com o governo português fossem facilitadas.

Coube também à UNITA a iniciativa e o esforço de convencer o governo do Quénia, no sentido de poder realizar-se em Mombaça uma conferência que consagrasse o entendimento entre os três movimentos de libertação e que permitisse igualmente a assinatura de um tratado de paz entre o MPLA e a FNLA, para que o País não entrasse nos seus primeiros dias de vida com o espectro dá guerra civil à sua frente. É, pois, da História, que foi a UNITA quem instigou e promoveu de facto a conferência de Mombaça, da qual saiu a plataforma que permitiu as negociações do Alvor, entre a parte angolana e a parte portuguesa.

Alvor, o grande logro

As negociações que culminaram no acordo do Alvor decorreram numa atmosfera pouco franca, de falsidade até, por parte da delegação portuguesa. Certo que, da sua composição, faziam parte pessoas de carácter e honestidade, como o general Silva Cardoso, o tenente-coronel Gonçalves Ribeiro e alguns mais. Mas havia os outros... Portugal fora obrigado a sentar-se à mesa das negociações pela dinâmica nacionalista angolana no seu todo; porém, as forças gonçalvistas, que controlavam a situação política naquele pais, tudo faziam para entregar o poder em Angola exclusivamente ao MPLA.


Acordo de Alvor (foto Net)

A atitude de antecipação da UNITA, assinando o acordo de cessar-fogo com as forças portuguesas, muito antes de qualquer outro movimento de libertação, confundia o governo português e punha a nu os seus pontos débeis. Como era possível prejudicar um movimento que fora o primeiro a aceitar o cessar-fogo, quando o programa do MFA vitorioso visava precisamente esse objectivo? Tal facto, a antecipação da UNITA, acabou, porém, por forçar o governo de Lisboa, manobrado pelo partido comunista pró-soviético de Cunhal, a aceitar, contra a vontade, outros interlocutores, além do MPLA. A divisão deste em quatro ou cinco facções evitou também que ele pudesse ser utilizado contra os outros. Por outro lado, o factor vizinhança de Angola, sobretudo em relação ao Zaire e à Zâmbia, países que apoiavam respectivamente a FNLA e a UNITA, também jogou e teve naturalmente de ser tomado em consideração. Mas isso tudo não fazia esconder a intenção de diminuir o impacto da UNITA e da FNLA nessas negociações.

O reflexo desse estado de espírito no Portugal gonçalvista traduzia-se nos órgãos de informação locais, que, manipulados, procuravam, enquanto as negociações decorriam, intoxicar a opinião pública, fazendo-a acreditar que o MPLA tinha tido um papel preponderante na luta anti-colonial. Papel que, como era evidente, lhe queriam outorgar também no processo de descolonização. Rosa Coutinho, por exemplo, que fora alto-comissário em Angola e fora introduzido "a martelo" no Alvor, com o título de observador, não deixou de manobrar nos corredores dó hotel onde decorriam as negociações, apesar da posição terminante assumida pela FNLA para que tal personagem não fizesse parte da delegação portuguesa.

O acordo do Alvor proporcionou aos dirigentes da UNITA uma revelação surpreendente: a de que os políticos portugueses, depois de cinquenta anos de fascismo, afivelavam uma nova "máscara", que não lhes deixava ver onde estavam os interesses do seu próprio país. De facto, nem sempre tomaram posições concordantes com a defesa desses interesses. E essa defesa era o mínimo que se podia exigir de uma delegação portuguesa à mesa de negociações com a parte nacionalista angolana. Até porque se tratava da nascença de uma nova nação e tal facto, em princípio, representava a ruptura da ligação de Angola com Portugal.

E porquê? Visivelmente porque a delegação portuguesa estava mais interessada em agradar ao MPLA que em fazer a defesa de Portugal e dos portugueses. No hotel em que nos alojámos, os delegados foram instalados da seguinte forma: no primeiro andar, os da FNLA; no segundo, os da UNITA; no terceiro, os do MPLA; e no quarto, os portugueses. Essa disposição ardilosa permitia encontros secretos permanentes à margem de possíveis indiscrições — mas os delegados da UNITA surpreenderam-nos algumas vezes — entre a delegação portuguesa e a do MPLA.

A definição do conceito da nacionalidade angolana, de que beneficiavam milhares de portugueses radicados em Angola, foi uma questão em que a delegação da UNITA se empenhou a fundo. Pois bem, a discussão no Alvor desse tema tomou formas tais, que foi necessário que o chefe da delegação da UNITA incumbisse um dos representantes do seu movimento, Tony Da-costa Fernandes, de falar com o dr. Mário Soares, então ministro dos Negócios Estrangeiros, incitando-o a que a delegação portuguesa não estivesse tão alheada dos seus interesses nacionais.

O conceito de cidadania angolana definido pela UNITA não teve, de início, a concordância dos outros movimentos. A delegação da FNLA declarou-se frontalmente contra a nossa decisão; e a do MPLA, através do seu porta-bandeira mais eminente nessa conferência, que não foi Agostinho Neto, mas sim Lúcio Lara, definiu que só os filhos dos colonos portugueses é que deveriam ser angolanos e que o problema dos colonos fosse considerado como de ulterior responsabilidade do governo português.

A questão da entrega dos "dossiers" da PIDE, que a delegação portuguesa queria fazer aos movimentos de libertação, representava um desconhecimento elementar dos processos de descolonização seguidos pelas outras potências. Portugal não era o primeiro país que descolonizava em África, e a delegação portuguesa deveria, pelo menos, ter-se informado das normas correctas, junto de outros países, a França e a Inglaterra, por exemplo.

Os que serviram e os que colaboraram na repressão do regime colonial português não podiam, de forma nenhuma, ser cotados como amigos da UNITA. Perdemos entes queridos das nossas famílias nas mãos desses carrascos; fomos por eles prejudicados na nossa vontade e no nosso direito de ascender na sociedade. Pois, apesar disso tudo, nós entendíamos que o governo português devia descolonizar com dignidade e não sacrificar aqueles que serviram o regime colonial, recrutados por esse próprio regime. A atitude portuguesa podia, inclusive, ter dado aso a uma guerra civil, com começo mesmo no Alvor, através de vinganças entre partidos.

Apesar de todas as taras com que nasceu o acordo de Alvor, nós, na UNITA, tínhamos a esperança de que a parte portuguesa honrasse a sua palavra, e que os Movimentos de Libertação, depois de quinhentos anos de dominação colonial e quinze anos de guerra de libertação nacional, aceitassem um mínimo de compromisso, para que o nosso País não fosse vítima de competições entre as grandes potências. A UNITA apelou permanentemente, desde 14 de Junho de 1974, para que o governo português controlasse, só ele, o processo de descolonização, evitando interferências de potências estrangeiras. Mas nessa altura mesmo, já o partido comunista português pró-soviético fazia o jogo deliberado da Rússia. Só Portugal e o Ocidente não compreenderam essa estratégia, a longo termo.

A União Soviética preferiu perder Portugal, que lhe esteve quase nas mãos, porque no fundo visava Angola. Utilizou para o efeito o Partido Comunista Português, que, com a sua influência junto do governo e dos militares, precipitou a descolonização e acelerou o respectivo processo. Uma vez atingido o seu objectivo em África (Angola), aceitou que o partido de Cunhal fosse sacrificado em Portugal.

Alvor demonstrou, por outro lado, e para além de todas as vicissitudes, uma certa adaptação, própria do povo português, à nova situação criada. Aparentemente para uns e realmente para outros, existiu até uma certa camaradagem e fraternidade, se não a nível oficial, ao menos a nível individual, entre portugueses e angolanos. Manda a verdade que se reconheça que, de um modo geral, a delegação portuguesa evidenciou a tal capacidade legendária do seu povo de se adaptar a novas circunstâncias. De estranho e de lamentável, foi que o partido comunista e o "gonçalvismo" tivessem tido assento no Alvor, com a vontade manifesta de manipular em favor do MPLA e escamotear o valor histórico desse acordo.

Face às lições obtidas no Alvor, importa sobremaneira prever e acautelar o futuro, para que novos acordos, novas negociações e novas maquinações políticas não venham nunca mais sacrificar os interesses mais legítimos e mais sagrados de um povo, vitima de séculos de dominação colonial, e hoje novamente nas trincheiras da Resistência contra imperalismos estrangeiros. O acordo do Alvor concluído, cada delegação tomou o rumo com que mais se identificava. A da FNLA dirigiu-se do aeroporto de Faro para Kinshasa. A do MPLA ficou em Portugal, onde Neto se apressou a multiplicar os seus contactos com o governo gonçalvista e o partido comunista, a fim de, inteirados da sua fraqueza, estabelecerem novas estratégias. A delegação da UNITA regressou a Angola.

REGRESSO A ANGOLA: CONSAGRAÇÃO DA POPULARIDADE DA UNITA

A primeira explicação pormenorizada dada ao povo angolano sobre o significado do acordo do Alvor pertenceu à UNITA, através de comícios realizados poucos dias depois, nas cidades do Luso e do Huambo. Com efeito, foi a direcção da UNITA quem apresentou primeiro ao povo de Angola o protocolo daquele acordo. Fê-lo, enquanto os dirigentes dos outros movimentos ocupavam o seu tempo da maneira que lhes parecia melhor, planificando já contra um tratado em que, ainda tão recentemente, tinham aposto a sua assinatura.


Savimbi dircursando (foto Net)

A recepção dispensada na capital do Huambo, em 27 de Janeiro de 1975, aos dirigentes da UNITA, recém-chegados do Alvor, por mais de meio milhão de pessoas, constituiu a demonstração cabal de que a Direcção do nosso movimento se tinha identificado completamente, no decurso de oito anos de luta nas matas, com os anseios e aspirações do povo oprimido. Na realidade, era uma identificação real, autêntica, jamais forçada. Nunca se registara em Angola uma manifestação idêntica. E ela só voltará a repetir-se — não tenho nenhumas dúvidas sobre isso — quando a UNITA regressar triunfalmente ao Huambo.

Na sua euforia, houve colonos que compararam aquela recepção com uma dispensada há muitos anos, também no Huambo, a Norton de Matos, o militar e político português, que representava uma certa tendência liberal dentro do colonialismo. Essas comparações, que já não podiam caber no tempo nem nas circunstâncias, reflectiam apenas o desejo desses colonos de agradarem aos dirigentes da UNITA, exprimindo a sua admiração, que não excluía uma certa incredibilidade. Custava-lhes a compreender que tivéssemos sido recebidos em meio de tal apoteose, por uma população exultante, que ainda ontem era considerada escrava, portanto, sem opinião.

A identificação, manifestada tão calorosamente no Huambo, em Janeiro de 1975, entre a direcção da guerrilha no Leste e as populações locais, nunca mais foi quebrada. Porque o conteúdo humano e patriótico que a UNITA representava para as populações do Leste e do Centro de Angola nesse dia, jamais foi (e será) preenchido por quem quer que seja. Os dirigentes da UNITA, que tinham desprezado a sua própria segurança e feito dos riscos que corriam permanentemente a sua força de interpretação das necessidades e aspirações do povo, estavam certos de que, mesmo que morressem nessa altura, a Pátria viveria livre, eternamente.

O meu encontro com a população da capital, em 26 de Abril de 1975, selou definitivamente a identificação do povo de Angola com o nosso Movimento. Tal como no Huambo, Luanda nunca se tinha manifestado como nesse dia. E os luandenses só virão decerto a encher as ruas, com o mesmo fervor patriótico, no dia em que a UNITA voltar para a capital do País. Temos o tempo e a História pelo nosso lado. Isso permite-me fazer análises frias, despidas de paixão. Foi, aliás, nesse dia 26 de Abril de 1975, que todas as veleidades de supremacia, de popularidade do MPLA, alimentadas pelos seus mentores russos e portugueses do partido comunista, caíram por terra. Foi a partir desse dia que qualquer intenção de participar no jogo democrático deixou de existir para o MPLA.

Até à minha chegada, a direcção do MPLA alimentava a ilusão — e propalava-a — de que controlava inteiramente a população de Luanda. Compreendeu nesse dia que as massas populacionais mais humildes da capital, como as do Huambo, Luso, Lobito, Lubango e Ongiva, nada sentiam de comum com ele. O representante do povo oprimido de Angola tinha aparecido: o povo identificava-o com a direcção da UNITA. Na sua filosofia simples, o povo tinha compreendido realmente de que lado estava a defesa dos seus interesses. Era o reconhecimento do sofrimento passado pela UNITA. Do seu respeito pela pessoa humana, pela dignidade de todos. O seu programa de implantar a justiça social, que a todos abrangesse por igual.

Por outro lado, os que pretendiam desde sempre identificar a UNITA apenas com as populações do sul, tiveram a certeza, nesse dia, de que o que identifica os movimentos de libertação não são as suas regiões de origem, mas as atitudes inequívocas que assumem em relação aos sentimentos e aspirações do povo. As provas eram múltiplas e claras. Enquanto a UNITA reclamava o aumento de salário para os trabalhadores, sem que estes deixassem de trabalhar, porque só produzindo é que se pode repartir, o, MPLA instigava às greves, utilizava os trabalhadores com objectivos meramente políticos, na sua maior parte desconhecidos do povo angolano.

Proclamando-se constantemente o defensor das camadas mais ofendidas e exploradas, o MPLA preconizava o boicote das aulas, a destruição das carteiras e do material escolar. Essa destruição não era praticada pelos filhos dos pobres, que precisavam de instrução; eram os filhos dos ricos que destruíam, que provocavam distúrbios. O MPLA criou os comités do "poder popular", ele que nunca praticara a democracia no seio das suas organizações, ele que nunca tivera confiança no diálogo ao nível dos seus órgãos de direcção e muito menos entre estes e as populações.

O MPLA utilizava os elementos mais frustrados da sociedade luandense, para servirem de agitadores, criarem o caos, porque sabia que só num clima desses poderia implantar-se. Foi assim que surgiram os "Sandokans" e outros grupos de bandidos. O MPLA serviu-se deles enquanto lhe foram úteis; reprimiu-os depois violentamente, sem ter em consideração a sua condição de diminuídos em toda a acepção do termo.

Foi, aliás, prática usual do MPLA servir-se dos indivíduos humanamente mais diminuídos, de consciência mal formada, para sobre as suas costas construir uma ditadura feroz, um regime repressivo, que começa a actuar precisamente primeiro contra aqueles que o ajudaram a construir e a consolidar. Depressa os estratos populacionais mais desfavorecidos começaram a compreender que o MPLA apenas se servia deles para atingir os seus objectivos políticos. Daí que o povo tenha compreendido que só podia defender os seus interesses, identificando-se com aqueles que se tinham solidarizado com ele, para o servir, e não para servir-se dele.

Huambo e Luanda ficaram como marcos inesquecíveis no historial da UNITA. Mas significaram também, para os dirigentes da UNITA, que a sua indesmentível popularidade exigia maiores responsabilidades. E de igual modo os advertiram de que os riscos da guerra civil eram iminentes e que a força de que dispunham não seria suficiente para deter a avalancha dos abutres que espreitavam para se abater sobre Angola. A UNITA necessitava de procurar vias e meios para atenuar o choque. Um choque que já era inevitável.