CARLOS ALBUQUERQUE, EDITORA LIVROS DO BRASIL, Junho 2002.
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Recomemdamos vivamente a todos aqueles que estejam interessados em conhecer pormenorizadamente o que se passou em Angola depois da independência ler esta excelente obra. Infelizmente nem todos terão facilmente acesso a este livro, e como tem copyright, solicito a indulgência do autor e da editora por esta transcrição cujo tema não encontrei tão claro em parte alguma. Obrigado.

A Guerra do Kuito

Pg.299/303. No segundo semestre de 1993, a tragédia angolana assumia proporções inimagináveis. Os números revelados pelas agências especializadas das Nações Unidas eram aterradores: mais de dois milhões de pessoas sofriam directamente os efeitos da guerra; ceifados pelas armas, pela fome ou pela doença, morriam por dia mil Angolanos; nos 55 dias de combates na cidade do Huambo tinham perdido a vida, pelo menos, 10 mil pessoas; nas áreas circundantes desta cidade milhares de refugiados agonizavam sem qualquer espécie de assistência; dez milhões de minas (uma para cada habitante!) espalhadas no país por portugueses (durante a guerra colonial), soviéticos, cubanos, sul-africanos, UNITA e MPLA.

De entre as várias actividades económicas, a agricultura era a que sofria de modo mais directo e intenso, os efeitos da guerra, que impediam o trabalho agrícola directo impossibilitando o funcionamento dos mecanismos de comercialização e distribuição, e dificultavam o acesso de meios de produção e de fertilizantes ao campo. As grandes produções para exportação (café, sisal e banana) debatiam-se com enormes dificuldades. A pequena produção, que, apesar de tudo, se mantinha, embora com intermitências, alguma dela por geração espontânea, não encontrava canais de escoamento. Os níveis de produção caíram para valores sem qualquer significado. Os produtos agro-alimentares passaram a ocupar o primeiro lugar na balança de importações angolanas.

Mais de 50% dos Angolanos (cerca de cinco milhões e meio) viviam em estado de pobreza absoluta, abaixo, portanto, dos níveis mínimos de sobrevivência, e 32% (meio milhão) em pobreza relativa, de acordo com números então revelados pelo Governo. A UNICEF anunciava, na mesma altura, estar a apoiar mais de trezentas mil famílias vulneráveis, assistindo-as com «kits» básicos de ajuda humanitária de sobrevivência.

Particularmente grave era a situação na cidade de Kuito, cercada pela UNITA. A população estava submetida a bombardeamentos diários, desde o início do ano. Chegavam-me relatos dramáticos, através de esporádicas comunicações via rádio, dando conta de toda a sorte de privações na capital biena, onde cadáveres, abandonados nas ruas, eram devorados por cães esfaimados. Não havia uma única casa de pé. Os habitantes, com medo dos bombardeamentos e dos tiros, escondiam-se entre as ruínas, deixando muitos mortos por enterrar. Só dali saíam para procurarem alguma coisa para comerem, como ratos, lagartos, raízes e folhas de arbustos, enfim, tudo o que encontrassem. Quando esta fonte se esgotou, começaram a alimentar-se dos cães que comiam os cadáveres humanos!

Utilizando peças de artilharia de longo alcance, os guerrilheiros de Savimbi flagelavam a cidade à distância, evitando confrontos directos de grande envergadura. Nos períodos em que os canhões se calavam, desdobrava os seus efectivos em grupos de 10 a 12 homens, com o objectivo de ultrapassar as depauperadas defesas governamentais (postadas em redor da pista de aterragem e na única estrada de acesso), e abrir caminho ao grosso das tropas, levando deste modo o pânico à população, que, apesar disso, se mantinha leal ao Governo, organizada em pequenos comités de resistência. No início de Outubro de 1993 — dez meses depois de iniciados os bombardeamentos pelo movimento de Savimbi — combatia-se casa a casa, acabando o Galo Negro por dominar completamente a situação, e conquistar o que restava da outrora bela cidade de Silva Porto: ruínas, destroços e uma população faminta e doente! As enfermidades atingiam de forma mais violenta mulheres, crianças e idosos.

No Kuito viviam alguns portugueses, que tal como os do Huambo, lá não quiseram continuar, depois da ocupação pela UNITA. Com a participação do Zaire e de São Tomé e Príncipe, como acontecera anteriormente, o Governo de Lisboa e a UNAVEM III negociaram com o Galo Negro a evacuação dos portugueses, que, a 22 de Outubro, foram levados para São Tomé com passagem pelo Zaire.


Kuito depois da guerra

As Nações Unidas, através da sua representante em Angola, pressionaram o Governo e a UNITA, e conseguiram autorizações para voos do Programa Alimentar Mundial ao Huambo, Kuito, Malange e Menongue. A primeira assistência foi feita ao Huambo, mas Luanda viria a suspendê-la, alegando que «a UNITA estava uma vez mais a não respeitar os Acordos, deixando passar o tempo sem criar as condições para a ONU atingir o Kuito». Após uma série de conversações, envolvendo gente da UNAVEMII, da UNITA e do Governo, o Programa Alimentar Mundial chegou finalmente à capital do Bié, na segunda quinzena de Outubro de 1993, ali encontrando milhares de pessoas a morrerem de fome e doentes.

O Governo, que entretanto conseguira rearmar e reagrupar as suas tropas na região, reconquistou a cidade tempos depois. Para lá segui com a minha equipa de imagem. O que encontrei foi um campo de pesadelo, com minas e munições deixadas por todo o lado — «uma terra onde se morre duas vezes», como me disseram as pessoas da terra. Não havendo já combates (os guerrilheiros haviam batido em retirada para as matas), era-nos vedado, contudo, circular à vontade, pois corríamos o risco de pisar num qualquer engenho explosivo anti-pessoal. O comando das FAA calculou em 45 mil mortos e 50 mil feridos as perdas do Governo e da UNITA, durante os 10 meses porque se prolongou a Guerra do Kuito. Uma tragédia de que a Comunidade Internacional se não apercebeu, ou perante a qual se mostrou indiferente, apesar dos constantes apelos da UNAVEM II.

Nos dois dias que estive no Kuito, vi gente a enterrar os mortos nos quintais, em campas separadas ou em valas comuns, e por entre os escombros. No pequeno espaço defronte de uma casa, que antes deveria ter sido um jardim, encontrei um jovem, talvez com 15 anos, vestido com trapos, encostado a um mamoeiro de braços caídos ao longo do corpo e olhar fixo numa tosca cruz de madeira, espetada num pequeno monte de terra recém-mexida, a dois passos dele. Pus-lhe a mão no ombro. Olhou-me e abanou a cabeça, levantando os braços com os punhos fechados, soltando um gemido, e deixando um esgar de dor e raiva marcar-lhe o rosto. Perguntei-lhe o que acontecera.

— Foi o meu mano, o meu mano que, quando a UNITA minou aí, estava a andar com o carro. Pisou a mina e morreu. Morreu mesmo muito mal. E depois o meu avô veio e também morreu, com os tiros.

— E os teus pais, onde estão? Não sei. Morreram talvez nos bandidos.

Noutro local estava um homem de calções rotos a alinhar pedras, delimitando um espaço rectangular de consideráveis dimensões. O que seria aquilo?

Aqui estava um buraco das bombas. Cavámos e abrimos mais. Quando os ataques paravam, deitávamos os mortos para dentro e fugíamos. Não dava tempo para mais. Aí estão centenas de corpos das nossas famílias e amigos. Outros, nem sabemos.

Marcas de uma vala comum!

Num terreno esburacado, brincavam miúdos com uma bola de trapos. Tinham metralhadoras AK a tiracolo. O mais velho andaria pelos 12 anos. Caminhei para eles. Juntaram-se à minha volta, curiosos com a câmara do José Cabina. Quando souberam que éramos jornalistas puseram-se com pantominas, como as FAPLA no Namibe, gritando exactamente o mesmo: «Amigo, nos filma.» Claro que filmei e quis saber porque andavam eles de armas reais a tiracolo, e não com umas de brinquedo, como seria normal. Deu a resposta um mais ladino, e talvez o mais velho do grupo.

— É para combater com elas. Temos todo o tipo de material. Até RPG7 e granadas.

A meu lado um oficial das FAA, que nos acompanhava, acrescentou:

— Sr. jornalista, estas crianças foram autênticos combatentes contra a UNITA, durante a Guerra do Kuito. Bateram-se como homens. Não sabem o que são brinquedos. A guerra não os deixa ser
meninos. Diga isto na sua reportagem, para toda a gente saber.

Enquanto recolhia mais umas imagens e entrevistas, no final do último dia da estada no Kuito, fui-me apercebendo de que muita gente (as FAA contaram mais de 5 mil pessoas) vinha das matas e de quimbos próximos procurar refúgio junto das tropas governamentais. Falei com alguns homens, com aspecto de camponeses. Tinham chegado, fugidos da UNITA, para se juntarem aos militares de Luanda. Agora, disseram-me eles, «a tropa vai colocar o homem na actividade produtiva»!

Quatro meses depois, já em 1994, voltei ao Kuito. Com a ajuda dos militares, de ONGs e da Cruz Vermelha Internacional, os populares reconstruíam a cidade. Algumas casas estavam de novo de pé, com paredes, portas, janelas (sem vidros), e telhados novos! Uma espécie de enfermaria da Cruz Vermelha funcionava num barracão, coberto com chapas de zinco, onde gente dedicada vacinava crianças e medicava adultos, com antipalúdicos e fármacos para as desinterias.

Uma ou outra loja, em instalações de solidez mais que precária, laboravam em pleno. Pelas esquinas, viam-se alguns putos a venderem maços de tabaco. Outros jogavam à bola nos passeios, mas sem as AK ao ombro. Alguns destes, sem pernas, por as terem perdido na deflagração de minas, arrastavam-se com as mãos e os coutos protegidos por serapilheira, ou movimentavam-se com o auxílio de paus a fazerem de canadianas, não deixando de participar na brincadeira. Fora-se-lhes parte do corpo, mas a alma ficara-se-lhes por inteiro. Nas ruas, tapavam-se buracos. Até um bar-discoteca animava as noites! Extraordinário coração e forte nervo o daquele povo, que renascia das cinzas e teimosamente se agarrava à sua terra, pronto para viver o futuro com esperança, sorrindo à vida.