Senhores do Sol e do Vento, Editorial Estampa, Lda, Liboa 1999 - http://www.browser.pt/Estampa/main.asp

JINGA MBANDI

"Mais de três séculos decorridos sobre esta admirável e aventurosa existência, a memória da heroína continua viva e venerada entre os compatriotas. A sua lembrança e o seu fascínio persistem igualmente nos espíritos de muitos dos descendentes dos antigos colonizadores de Angola".

De acordo com algumas versões, Ngola Kiluanje faleceu nos alvores de 1617, assassinado por chefes do seu exército junto às margens do rio Lucala. Deixou um filho menor, outro adulto - Ngola Mbandi - e as filhas Funji, Kambo e Jinga. Ngola Mbandi rompeu caminho para o poder no Ndongo através de um mar de sangue, liquidando quantos pudessem apresentar-se como estorvos das suas ambições. Sacrificou o irmão menor, o comandante do exército e alguns senhores proeminentes. Suspeitoso da própria sombra, determinou o assassínio de um pequeno sobrinho, fruto dos amores de Jinga. Não hesitou depois em fazer secar as fontes de potenciais rivalidades, ordenando a esterilização das três irmãs mediante água fervente ou ferros em brasa.

Na transição de 1617 para 1618 as relações entre os Portugueses e o Ndongo eram mais ou menos pacíficas. Voltaram a deteriorar-se quando os invasores se lembraram de edificar um forte em Ambaca, no coração do país ambundo. Pouco tranquilo com a vizinhança, Ngola Mbandi reagiu com um assédio à guarnição portuguesa recém-instalada. Em Luanda, o governador Luís Mendes de Vasconcelos cogitou que chegara a hora da verdade e decidiu-se por uma ofensiva em forma. O ataque foi desencadeado nos começos de 1618, sob chuvas torrenciais. Combatendo com dificuldade em terrenos empapados, as forças portuguesas lograram mesmo assim, e pela primeira vez, penetrar vitoriosamente na lendária Kabassa. Os soldados surpreenderam-se com as habitações da capital: eram de palha, mas sumptuosas, porque dentro eram lavradas de penas de pavões e de outras aves, com diversos laços e lavores. Nas horas seguintes, grossos rolos de fumo escapavam-se de Kabassa em chamas, filas de escravos palmilhavam os trilhos em direcção ao litoral e Ngola Mbandi andava a monte.

Mas os Portugueses não suspenderam as operações. Um filho do governador, rapazola de 19 anos, pôs em polvorosa uma vasta área. Acolitado por numerosa guerra preta, devastou e pilhou os povoados, arrebanhando muitos prisioneiros e espalhando uma onda de terror pelos caminhos. O comércio sofreu um colapso e quase se extinguiu o tráfico de escravos: eis o género de ocorrência que as supremas autoridades portuguesas jamais poderiam tolerar. Numa sensacional reviravolta, fizeram encarcerar em Massangano o governador Vasconcelos, após o que o desterraram para o Brasil. Deliberaram ainda o reatamento de relações com Ngola Mbandi, que buscara entretanto refúgio nas ilhas do Cuanza. O rei do Ndongo aproveitou a maré e colocou ao novo governador lusitano as suas condições de paz: desmantelamento do forte de Ambaca, afastamento dos soldados e devolução dos ambundos aprisionados nos recentes combates.

Principia a notabilizar-se por esta época a princesa Jinga, heroína do povo ambundo. Chegada em 1622 a Luanda como embaixatriz do irmão Ngola Mbandi, esta bela e invulgar mulher, ao tempo com cerca de 40 anos, exerceu um estranho fascínio sobre os Portugueses. O governador João Correia de Sousa, à testa de um cerimonioso cortejo de militares, religiosos e altos funcionários, dispensou-lhe uma recepção espaventosa. Com ela vistoriou corredores de tropa, enquanto se ouviam as salvas de artilharia e um festivo crepitar de mosquetes. Jinga encarou as homenagens com naturalidade. Orgulhosa, destemida, de uma sagacidade instintiva, ela não consentiria em nenhum momento a mais ténue das dúvidas acerca da sua condição: só aceitaria negociar em pé de igualdade. E fez com que isso ficasse patente, logo no começo das sessões, com o célebre episódio da cadeira. Quando a princesa, coberta de gemas preciosas e rodeada de escravas, penetrou com um porte cheio de majestade na sala reservada às conversações, notou que os Portugueses se haviam limitado a providenciar, no lugar de honra, uma única cadeira almofadada de veludo, obviamente destinada ao governador.

Para ela, como era costume nestas ocasiões, estavam preparadas duas almofadas de veludo dourado sobre um tapete. Jinga não se desconcertou. Com um aceno fez ajoelhar-se uma das escravas, de mãos espalmadas no chão, após o que tomou tranquilamente assento no seu dorso. Conservou-se assim durante toda a sessão, ante o constrangimento da circunspecta assistência europeia. À saída, como a escrava se deixasse ficar na incómoda posição, o governador sugeriu a Jinga que lhe concedesse permissão para se erguer. A princesa retorquiu que não se tratava de uma distracção: a serva ficava para trás, simplesmente, porque uma fidalga da sua estirpe não podia voltar a utilizar o mesmo assento.

Os resultados da missão diplomática foram prometedores, mas repletos de cambiantes inesperados para os Portugueses. Quando o governador manifestou a intenção de fixar ao rei do Ndongo um tributo anual, Jinga escandalizou-se e ripostou que um tributo era coisa suportável por um vencido, mas nunca por um soberano independente como o irmão. Os Lusitanos retrocederam, com prudência, nas suas pretensões, e comprometeram-se a dar satisfação às principais exigências de Ngola Mbandi, nomeadamente no que respeitava à evacuação do forte de Ambaca. Pela boca da irmã, o soberano ambundo garantiu-lhes por seu turno que os caminhos do Ndongo se conservariam doravante pacíficos para as caravanas de escravos.

A desenvoltura e a lucidez de Jinga encantaram os dignitários portugueses e, em particular, o governador João de Sousa. A instâncias deste, ela concordou em receber o baptismo na Sé Catedral de Luanda, adoptando, em honra do anfitrião, o nome de Ana de Sousa. O facto, sem dúvida um astucioso gesto político dessa mulher cheia de contrastes na fortíssima personalidade, produziria inesperados reflexos cerca de trinta anos mais tarde.

Este panorama esperançoso sofreria repentinamente uma metamorfose radical. No declinar de 1623, durante o mandato do governador Simão Mascarenhas, Ngola Mbandi pereceu vítima de envenenamento no seu abrigo das ilhas do Cuanza. Jinga, a primeira suspeita desta morte, agiu com determinação e frieza, apoderando-se das rédeas do poder. Deu início ao seu governo com um sangrento episódio de prevenção e vingança: mandou que arrastassem à sua presença o filho de Ngola Mbandi e tirou-lhe a vida, ao que se diz, por suas próprias mãos, arrojando depois o pequeno corpo às águas do Cuanza. Virou-se a seguir para os Portugueses "e exigiu-lhes a prometida retirada de Ambaca. Mas este posto avançado passara a constituir um grão de areia incontornável nas relações dos invasores com os Ambundos. A verdade é que os Portugueses se achavam agora convictos de que tinham ido longe de mais nos seus compromissos. Não podiam dar-se ao luxo de abandonar o forte, sob pena de verem desmoronar-se uma posição de excepcional valor estratégico, localizada na confluência das mais concorridas rotas de escravos entre o Dande e o Cuanza. Resolveram assim dar o dito por não dito.

Jinga reagiu à má-fé dos interlocutores. Instigados por agentes seus infiltrados em Luanda, milhares de escravos dos Portugueses empreenderam a fuga para o Ndongo. Furiosos, e em simultâneo invadidos por um secreto temor daquele poder que se robustecia a cada instante, os senhores de Luanda reclamaram a devolução imediata dos fugitivos. Jinga, imperturbável, lançou-lhes em rosto a sua falta de palavra. Culminando um período confuso de movimentações militares e infrutíferas diligências diplomáticas, os invasores abalançaram-se a um expediente de último recurso: tomando sob a sua protecção o senhor das penedias de Pungo Andongo, Ngola Airi, proclamaram-no rei do Ndongo em 12 de Outubro de 1626. Jinga insurgiu-se contra a usurpação, mas uma ofensiva militar portuguesa obrigou-a à fuga através de uns despenhadeiros, que transpôs suspensa de cordas improvisadas com plantas trepadeiras. Depois internou-se com os seus fiéis no sertão, rumo à Matamba, um dos refúgios dos temíveis Jagas.

Permanecem obscuros os primeiros passos da rainha no exílio. Os Portugueses, logo que a souberam em retirada pelos domínios dos antropófagos, esperaram que o problema se resolvesse por si. Mas a filha de Ngola Kiluanje teve artes de cimentar uma estranha aliança com os Jagas. Copiou-lhes os hábitos e transformou-se numa ardente defensora das suas leis sanguinárias. Na resoluta arrancada para um novo poder, não hesitou ante o passo decisivo: entregou-se com os companheiros a rituais de canibalismo. Ao cabo de um sinuoso percurso - em que impôs o seu temperamento de aço - fez-se proclamar, com largo apoio, rainha da Matamba. Não tardou a criar uma sólida reputação de mulher bafejada por poderes sobrenaturais. Fazia bastante por isso. Conservava num cofre chapeado de prata as ossadas do mano Ngola Mbandi, recorrendo a feiticeiros portadores do espírito do falecido para perscrutar os sombrios esconsos do futuro. Dispondo de uma laboriosa rede de espiões, adquiriu fama de adivinhar as intenções mais ocultas, o que funcionava como precioso factor de dissuasão de eventuais conspirações


Pungo Andongo (Pedras Altas) 1890 (foto net)

A rainha nem por um instante admitiu abdicar dos seus direitos no Ndongo. Exércitos da Matamba apoquentavam com incursões o usurpador de Pungo Andongo, convertido num fantoche dos Portugueses. Jinga assumia muitas vezes o comando directo das tropas e os inimigos podiam descortinar-lhe o vulto altaneiro durante as batalhas. Rodeada de um intransponível cinturão de guardas, surgia normalmente em trajos de guerra, abrigada sob um chapéu-de-sol. Nas derrotas, possuía o fantástico condão de se sumir do teatro das operações sem deixar rasto. Disseminando a destruição e o medo pelas regiões assoladas, tornar-se-ia num tormento para os Portugueses durante perto de trinta anos.

Um dia, na segunda metade de 1641, mensageiros alvoroçados fizeram chegar à Matamba estimulantes notícias do litoral. Segundo eles, os portugueses de Luanda estavam metidos em sérias dificuldades: vacilavam, à beira da derrocada, diante da investida de uns misteriosos invasores brancos vindos dos lados do mar a bordo de uma esquadra poderosa.

Os Lusitanos estão prestes a sofrer em Angola, tal como vem sucedendo há décadas noutros locais do seu império, as consequências da insensata aventura do reizinho Sebastião nos campos de Alcácer Quibir. Com efeito, a união forçada das duas Coroas ibéricas, em 1580, significou para eles, sob diversos aspectos, um verdadeiro abraço mortal. Ligados ao destino violento dos Espanhóis, são apanhados pelo redemoinho das lutas em que estes se debatem e têm de haver-se com adversários pertinazes - Ingleses, Franceses, Holandeses. O ataque destes últimos é, de longe, o mais devastador. Em luta com a Espanha pela sua independência, os Holandeses vêem cerrar-se diante dos seus navios comerciais, como represália de Filipe Segundo, os importantes portos ibéricos, incluindo o de Lisboa. Ora, à Holanda cabe nesse tempo uma parcela significativa do negócio de distribuição das especiarias pelos países da Europa Central. Privados do abastecimento, mas senhores de uma vigorosa economia e de um gigantesco poderio naval - que rivaliza com os de Portugal, Espanha, França e Inglaterra juntos -, os Holandeses não desarmam e decidem tomar, eles próprios, o rumo das fontes de especiarias. Dão corpo em escassas décadas a uma formidável empresa ultramarina, sobretudo à custa de um assalto demolidor às posições portuguesas. Nesta descomunal tarefa de expansão contam fundamentalmente com a iniciativa privada, cujos principais agentes são a Companhia das índias Orientais, fundada em 1602, e a Companhia das índias Ocidentais, constituída em 1621. Escudados por uma superioridade esmagadora, vão prosseguindo com tenacidade, a tiros de canhão, um triplo objectivo: domínio das fontes asiáticas das especiarias, conquista das plantações açucareiras que os Portugueses detêm no Brasil e garantia de mão-de-obra africana para os engenhos brasileiros.

No Oriente, os bastiões lusitanos soçobram um após outro e Lisboa passa a desempenhar, com as poucas feitorias que lhe sobram, um papel insignificante no mercado das especiarias. A partir de 1630 os Holandeses estão instalados com solidez em Pernambuco, no Nordeste brasileiro, ficando no entanto aos Portugueses o domínio de fortes posições, mais para sul. Contudo, os engenhos e as plantações de açúcar não reúnem hipóteses de subsistência sem os braços negros do outro lado do Atlântico. Os estrategos de um e de outro lado ponderam com acerto que o Brasil será ganho por quem detiver nas mãos os lugares por onde se escoa a mão-de-obra africana. Os olhos dos Holandeses volvem-se, por isso, para os domínios lusos de São Tomé e de Angola, cujas costas principiam a rondar.

Na iminência de mais um ataque, uma vibração de esperança percorre as fileiras portuguesas. Com efeito, na fria manhã do primeiro dia de Dezembro de 1640 eclode em Lisboa uma espectacular reviravolta da política ibérica. Algumas dezenas de conspiradores tomam de assalto o palácio da vice-rainha espanhola, a duquesa de Mântua, aprisionam-na e declaram restaurada a independência portuguesa após sessenta anos de jugo castelhano. A insurreição, que desperta uma adesão entusiástica das camadas populares, coloca no trono o hesitante duque de Bragança, agora João Quarto de Portugal. O golpe é irreversível, apesar de as lutas da independência se irem arrastar por um período de vinte e oito anos. Reconhecido pelas principais potências europeias, o Governo português apressa-se a encetar a negociação de um tratado de tréguas com os Holandeses. Será assinado em 12 de Junho de 1641. Tal não bastará, porém, para que cessem as hostilidades. Nasce entre os dois países uma relação singular: tréguas e aliança na Europa, com uma cooperação activa contra o inimigo comum, a Espanha, e uma luta selvagem no ultramar, em disputa das posições coloniais. Trata-se ao mesmo tempo de um combate impregnado de intensa animosidade religiosa - de um lado, os católicos lusitanos; do outro, os calvinistas holandeses.

Os mensageiros de Jinga diziam a verdade. No dia 22 de Agosto de 1641, o almirante holandês Cornélio Jol, conhecido entre os Portugueses por Pé de Pau, surgiu abruptamente diante do casario de Luanda com uma armada de cerca de duas dezenas de navios. Enviado do Recife, no Brasil, pelo prestigioso governador holandês Maurício de Nassau, o almirante contava com uma força de assalto de quase três mil homens, entre soldados e marinheiros. O padre capuchinho Cavazzi registou os prodígios que haviam pressagiado meses antes, nos céus da capital da colónia, a temível ameaça calvinista: Apareceram no ar cometas, vigas, espadas, rodas e outras semelhantes figuras de fogo, com trovões, frémitos, gritos e terrível estrondo, semelhante ao dos exércitos combatentes. O cronista não o diz, mas esse era o tempo das grandes trovoadas de Luanda.

Se alguém nutria dúvidas acerca dos seus desígnios, Pé de Pau encarregou-se de as dissipar logo nos primeiros instantes. Assumindo ostensiva disposição de combate, determinou uma salva de canhões com balas reais, e não com pólvora seca, como era de ordenança. O governador português, Pedro César de Meneses, que mal conseguiu juntar trezentos defensores, enviou precipitadamente os seus emissários aos Holandeses. Invocando o novo estado de coisas com os Espanhóis, procurou dissuadi-los dos seus mais do que evidentes propósitos de agressão. Os recém-chegados reagiram com fria duplicidade. Alegando que se cingiam à execução de ordens superiores, declararam não possuir indicação de que a colónia tivesse sido restituída a Portugal pelos Espanhóis. Concluíam, pois, com uma lógica sonsa, que a sua frota se achava fundeada diante de território hostil, após o que trataram beatificamente de acelerar os preparativos para o assalto à cidade. Pedro de Meneses, sem ilusões quanto ao desfecho do confronto iminente, pensou em esquivar-se aos golpes do adversário enquanto era tempo. Assim, na noite de 25 para 26 de Agosto, uma furtiva procissão de homens, mulheres e crianças, encabeçada pelo governador, cosia-se com as paredes sombrias de Luanda e iniciava uma dramática fuga para o sertão. No dia seguinte a cidade achava-se à mercê dos invasores. Benguela, a sul, cairia ainda nesse ano, e São Tomé sofreria idêntico destino. Do outro lado do oceano, no território brasileiro controlado pelos Calvinistas, Maurício de Nassau, com o fornecimento de escravos assegurado, poderia esfregar as mãos de contente.

Entretanto, no coração do mato, mortificados de sede e acossados pelos Holandeses durante grande parte do trajecto, os fugitivos acabaram por alcançar o reduto de Massangano. Em associação com as guarnições de outras bases do interior - Muxima, Cambambe, Ambaca -, iriam recorrer a uma desesperada actividade de guerrilha contra o inimigo, que tudo fazia para confinar-lhes os movimentos às imediações dos fortes, barrando-lhes o acesso ao litoral. Os Holandeses confiavam nos rigores do clima e nas febres abrasadoras para extinguirem aquela oposição, a que depreciativamente chamavam fogo de monturo. Colocando em campo uma sedutora diplomacia, cedo passaram a contar com valiosos apoios locais, como o que lhes foi proporcionado pelo rei do Congo, Garcia Afonso Segundo, que já nada esperava dos antigos aliados do seu reino. Mas a mais importante das alianças dos Calvinistas foi a que firmaram com Jinga da Matamba: empenhada como nunca em expulsar os Portugueses, a rainha logo se dispôs a fazer causa comum com os novos invasores. Já sexagenária, ela refinava de astúcia e crueza naquela luta sem quartel. Aqui e ali, lançava mão de eficazes processos de guerra psicológica, como no dia em que um destacamento português se deixou surpreender pela queda da noite na espessura do mato. Alta madrugada, o silêncio do acampamento foi rasgado pelo som inquietante de um gongo. Uma voz roufenha irrompeu das trevas, dando lugubremente as boas-vindas da rainha aos soldados lusitanos e aos seus auxiliares africanos. A voz assegurou-lhes que eram esperados há muito: as panelas em que seriam cozinhados já levantavam fervura. Histórias como esta propagavam-se pelo sertão com a ligeireza do vento, envolvendo a figura de Jinga numa irradiante auréola de prestígio.

As raízes da presença portuguesa no território alcançavam já, contudo, uma profundidade insuspeitada pelos invasores calvinistas. Batidos inúmeras vezes por estes e pela miséria, e hostilizados por vários sobas de génios acicatados pelo inimigo, os Portugueses puderam sempre contar com a sua animosa guerra preta, composta essencialmente de gente dispensada por Ngola Airi. Tinham ainda arranjado maneira de agregar-lhe um corpo de sanguinários jagas. À cabeça desta tropa heterogénea, arremetiam sobre os Holandeses em investidas de surpresa ou desencadeavam cruentas retaliações contra os aldeamentos rebeldes. Assim foram aguentando vivo, mês após mês, o braseiro do seu fogo de monturo. Tratava-se, não obstante, de um combate desigual: sete anos depois da queda de Luanda, a resistência portuguesa entrou em agonia. Dizimados pelas doenças e pelas sangrias da guerra, os defensores dos fortes vegetavam com os familiares na maior das penúrias. Massangano estivera na iminência da capitulação durante uma violenta ofensiva holandesa. Ficaram memoráveis as cenas de pânico de uma certa noite, em que as mulheres e as raparigas, em prantos na igreja do reduto, se abraçavam às imagens dos santos da sua devoção, suplicando-Ihes a graça de escaparem à violação por aqueles bárbaros hereges. Mas, nessa como em tantas outras ocasiões, a lendária fortificação manteve-se inexpugnável.

Inesperadamente, em 1648 ocorreu algo de providencial para os sitiados. O fidalgo brasileiro Salvador Correia de Sá, nomeado governador e capi-tão-general de Angola pelo rei de Portugal, zarpou em meados de Maio do Rio de Janeiro para a costa africana. Trazia cerca de mil e duzentos homens distribuídos pelos navios de uma esquadra imponente. A 12 de Agosto, quinze barcos de guerra balouçavam-se, ameaçadores, à vista de Luanda. Ante a estupefacção da guarnição holandesa, invadiram a baía pela barra da Corimba e fundearam junto ao forte do Penedo. Daqui remeteu Salvador de Sá um ultimato de rendição ao comandante inimigo. Os Calvinistas, que tinham uma parte considerável dos efectivos destacada no interior, procuraram ganhar tempo com evasivas. Ao cabo de três dias, percebendo-lhes a manobra, os Portugueses deram início a um assalto vigoroso, lançando à conquista dos morros avermelhados as suas linhas de infantaria, apoiadas por barragens de artilharia terrestre e naval. No seguimento de combates de dureza incomum, em que os assaltantes sofreram perto de centena e meia de baixas mortais, os sitiados arvoraram a bandeira branca no dia 18 de Agosto. Salvador de Sá concedeu-lhes uma capitulação honrosa, que passava pela retirada do território. No entanto, apesar do cavalheirismo reinante, o português exigiu que o embarque se efectuasse no local onde os actuais vencidos tinham posto pé em terra, no ano de 1641, para a fácil conquista de Luanda. Isto porque Sá fazia questão de que a heresia saísse daquele reino pelos mesmos passos por onde havia entrado a infeccioná-lo.

A 26, precisamente no sétimo aniversário da debandada de Pedro César de Meneses, cerca de mil holandeses encaminharam-se até ao ponto onde se achavam ancorados os navios que os conduziriam às regiões brasileiras ainda em seu poder. Com os pavilhões desfraldados, marcharam de armas em punho e ao toque dos clarins e das caixas de guerra, por entre alas de soldados portugueses. Na praia, deixaram-se desarmar pacificamente. Nos dias de celebração que se seguiram, revestiu-se de um simbolismo pungente a chegada a Luanda dos sobreviventes da resistência lusitana. Vindos do sertão - trôpegos, míseros, mas cheios de orgulho -, mergulharam numa festiva recepção ao longo das artérias da capital, saudados pelo estralejar da fuzilaria, pelo estrondo dos canhões dos fortes e pelo repicar dos sinos do colégio jesuíta.

Com este rude golpe começou a esboroar-se o império comercial erigido pelos Holandeses nas costas atlânticas. As posições de Benguela e São Tomé foram rapidamente recuperadas pelos Portugueses. Quanto ao Brasil holandês, cumpriam-se os vaticínios dos estrategos: privados da mão-de--obra angolana, e a braços com irresistíveis levantamentos das populações brasileiras, os Calvinistas viram-se compelidos à evacuação do território no ano de 1654.

Seguros em Luanda, os Portugueses trataram de reaver o domínio das antigas zonas de influência. Reforçando os laços com os seus fiéis aliados africanos, empenharam alguns destacamentos em severas acções punitivas dos sobados que haviam alinhado ao lado dos Holandeses. Desdobraram-se ao mesmo tempo em complexas diligências diplomáticas junto de Jinga, a sua perigosa adversária da Matamba.

Os padres capuchinhos constituíram o mais valioso dos trunfos lusitanos durante esta melindrosa aproximação. Por seu intermédio, e cerca de trinta anos após o baptismo de conveniência realizado em Luanda, a velha guerreira, quase septuagenária, cedia enfim à magnética atracção dos cerimoniais em que era fértil a religião dos inimigos. Todavia, nem por um só instante se reconheceu vassala ou tributária doutra pessoa além de Deus. Mantinha o temperamento indomável, rico de manifestações imprevistas. Adorava trocar as sumárias vestimentas tradicionais pelos trajos garridos à moda portuguesa. Esta mulher aparentemente insensível, que deliberava execuções em massa entre súbditos e inimigos, era a mesma que se entregava a frequentes visitas aos portugueses capturados nas batalhas, fazendo-Ihes chegar às mãos crucifixos, terços, medalhas e livrinhos de orações recolhidos nos despojos dos combates. Quando um dos seus chefes-de-guerra se manifestou incomodado com esses gestos compassivos, ela reagiu com aspereza, retorquindo que os prisioneiros, sendo criaturas de Deus, mereciam alguma compaixão, constituindo para eles pena suficiente a perda da liberdade. No crepúsculo da vida, tomada de dúvidas existenciais, passou a venerar sob o mesmo alpendre, para grande escândalo dos padres brancos, a cruz dos cristãos e os ossos de Ngola Mbandi, o irmão assassinado.

Em 1657, assediada pelos capuchinhos e fatigada da guerra com os Portugueses, Jinga anuiu a um tratado de paz com estes. Em contrapartida, os Lusos devolveram-lhe a irmã Kambo, aprisionada havia uma década. No último dia de Maio daquele ano a rainha convocou o povo para uma enorme praça do quilombo e anunciou-lhe a sua conversão, bem como o termo das hostilidades com os brancos. De pé numa eminência, de arco e flechas em punho, conservava, apesar dos 75 anos, o porte majestoso de sempre. Na sua alocução foi corajosa, desafiadora e empolgante. Renego a ímpia seita e os sacrílegos ritos dos Jagas, expulsando-os do meu coração e do meu reino (...). Volto a ser cristã (...). Quem se atreverá a contradizer as minhas palavras? Quem fugirá? Quem me abandonará? Ninguém a contradisse, ninguém fugiu, ninguém a abandonou. Ao invés, assombrosos foram os efeitos da sua conversão. Ostentavam-se crucifixos por toda a parte, inclusive nas fileiras de combatentes que partiam para escaramuças com os povos vizinhos. Jinga pugnava pela difusão da palavra de Deus, exercia a caridade e colocava os prisioneiros à disposição dos missionários para que lhes fosse ministrado o baptismo. Insistia para que se rezasse o terço e se organizassem procissões, invariavelmente rematadas por cânticos sacros, fogos e esfuziantes manifestações de alegria. Mandou dar caça aos feiticeiros, como sempre suspeitos de possessão demoníaca. Os padres não tinham descanso, praticando exorcismos em série. Nessa época, em que pareceu ressuscitar na Matamba uma sugestão do velho Congo, Jinga chegou a trocar correspondência com o papa Alexandre Sétimo.

A rainha expirou, em sossego, a 17 de Dezembro de 1663, com 81 anos de idade, prendendo devotamente um crucifixo nos dedos. Manteve absoluta lucidez até à hora derradeira, enquanto o padre Cavazzi lhe dava a extrema-unção. De acordo com as suas disposições, baixou à sepultura amortalhada num hábito de capuchinho. Mais de três séculos decorridos sobre esta admirável e aventurosa existência, a memória da heroína continua viva e venerada entre os compatriotas. A sua lembrança e o seu fascínio persistem igualmente nos espíritos de muitos dos descendentes dos antigos colonizadores de Angola.