
21 de Março de 2006

D. Queirós Alves
D. Queirós Alves, arcebispo do Huambo, a "O DIABO"
"A grande massa populacional de Angola vive miseravelmente"
O arcebispo do Huambo considera a má distribuição das receitas públicas como uma das causas da «situação social muito vulnerável» que se vivem Angola. Em entrevista a O DIABO, D. Queirós Alves diz que, «falta transparência aos políticos na gestão dos fundos» e denuncia que «os que têm contacto com o poder e com os grandes negócios vivem bem», enquanto a grande massa populacional faz parte da «classe dos miseráveis». O prelado mostra-se ainda preocupado com o atraso do processo eleitoral angolano
João Naia
O DIABO - Há dias, em declarações à «Rádio Renascença» a partir
do Huambo, disse que Angola «ainda se encontra numa situação muito vulnerável». A que
vulnerabilidade se referia em concreto?
D. QUEIRÓS ALVES - Sobretudo à vulnerabilidade social. E que resulta da situação de guerra que durou até à dois anos atrás. Uma guerra marcada por muita violência, quer entre forças políticas quer entre a população. A guerra deixou feridas muito profundas no tecido angolano, no povo de Angola, feridas que não se curam de um dia para o outro.
A responsabilidade dessas «feridas sociais» é exclusivamente da guerra?
Não. A má distribuição das receitas públicas também é culpada.
Há má gestão e distribuição dos dinheiros públicos?
É necessária mais e maior transparência dos políticos na gestão dos fundos públicos. Isso não acontece e é urgente que passe a ser uma regra. A estrutura económica do país exige essa transparência. Falta justiça social.
Angola e, sobretudo, o seu presidente, José Eduardo dos Santos são muitas vezes associados a uma «cultura de corrupção». Concorda?
Dentro e fora de Angola fala-se muito da existência de corrupção, apontam-se factos e nomes, mas até agora não foram apresentadas provas. E sem elas... O Presidente da República disse que o seu governo está empenhado no combate à corrupção...
Os ricos e os «miseráveis»A verdade é que quem está na área do poder vive abastadamente e quem não está vive na mais extrema pobreza.
Em Angola, como em muitos outros países, falta uma classe média grande e forte. Dessa lacuna resulta que os bens concentram-se num grupo muito pequeno e, por outro lado, temos a grande massa populacional de Angola que vive miseravelmente.
«O povo, especialmente o que foi deslocado das suas terras devido à guerra, vive miseravelmente, enquanto um grupo de pessoas, aquelas pessoas que têm contacto com o poder, com o petróleo, com os diamantes, com os grandes negócios vivem muito, muito bem»Subscreve, portanto, que quem pertence à nomenclatura política de Luanda não tem quaisquer problemas?
O povo, especialmente o que foi deslocado das suas terras devido à guerra, vive miseravelmente, enquanto um grupo de pessoas, aquelas pessoas que têm contacto com o poder, com o petróleo, com os diamantes, com os grandes negócios vive muito, muito bem.
Choca-o essa diferença?
A quem é que não chocará?
Essa é uma realidade de todos conhecida, mas que o poder político procura esconder. Há pouca liberdade de informação em Angola?
Reconheço que há falta de abertura do partido no poder, o MPLA, no que respeita ao acesso à informação.
Como é que isso pode e deve ser mudado?
O povo angolano deve ser mais activo e deve estar mais atento. O povo de Angola deve obrigar os políticos a cumprir tudo aquilo que prometem.
Há pouco tempo, a «Rádio Ecclésia» fez uma reportagem em Luanda e confirmou que há muitas pessoas a viver de restos de contida que procuram no lixo. É verdade?
É. Essas pessoas fazem parte da classe dos miseráveis. Há uma quantidade grande de gente que se encontra a viver em condições infra humanas.
A paz já é uma realidade em Angola?
Pessoalmente considero que não, mas acredito que os governantes têm na consolidação do processo de paz a sua principal prioridade. Vamos esperar para ver.
Que diferenças mais significativas é capaz de referir entre a Angola que conheceu em 1966 quando foi missionário e o país que é hoje?
A diferença mais marcante tem a ver com a identidade. Hoje, Angola é um país independente, soberano, tem uma identidade muito forte e confiança no seu futuro. Angola tem potencialidades para ser uma grande potência de África. É importante que a Europa, por exemplo, não esqueça o Terceiro Mundo.
«Angola precisa de eleições»Está preocupado com o atraso no processo eleitoral angolano?
É evidente que me preocupa o atraso que se regista no processo eleitoral.
O Primeiro-Ministro de Angola disse em Lisboa que as eleições deverão ter lugar só em 2007, e que as legislativas podem coincidir com as presidenciais. Está de acordo?
Espero que tudo decorra dentro dos prazos que estão previstos. Angola precisa de eleições. Se o senhor Primeiro-Ministro afirmou isso ele é que sabe, a mim não me apoquenta que as eleições legislativas e as presidenciais sejam em simultâneo. O que é preciso é que se façam.
Eduardo dos Santos, há 29 anos no poder, deverá voltar a candidatar-te. Não acha que era tempo de dar o lugar a outro?
Nesse assunto não me quero meter...
«Reconheço que há falta de abertura do partido no poder, o MPLA, no que respeita ao acesso à informação. O povo angolano deve ser mais activo e deve estar mais atento. O povo de Angola deve obrigar os políticos a cumprir tudo aquilo que prometem»Também não comenta o «caso Miala» que tem provocado tanta polémica em Luanda?
Não, não comento. Aliás, não tenho informação suficiente para poder comentar com rigor essa situação.
Relações Angola-Portugal «devem ser profícuas»O que é que o senhor bispo espera da visita que o Primeiro-Ministro de Portugal vai efectuar a Angola no próximo mês?
Espero que Angola e Portugal continuem a ter boas relações, que sejam profícuas para os dois países. Portugal deve ajudar Angola a ser um país mais progressivo.
Mas o presidente de Angola, ao faltar à tomada de posse do novo presidente de Portugal, deu uma prova de desconsideração...
Bom... Ele lá saberá porque não foi a Lisboa. Mas deu um bom sinal ao enviar em sua representação o Primeiro-Ministro.