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O autor

Influência do Armamento Nuclear sul-africano na guerra de Angola

Por Mario Riva Morales, tenente-coronel da Força Aérea Cubana.

A África do Sul vinha trabalhando na fabricação de uma bomba atómica fazia muito tempo mas os trabalhos na mesma se aceleraram depois da sua derrota frente às tropas angolano-cubanas em fins de 1975.

Um satélite soviético captou que a África do Sul construía dois túneis profundos no deserto do Kalahari em Agosto de 1977, que só podiam ser destinados a provas de armas atómicas. Os norte-americanos comprovaram-no com os seus meios técnicos e a URSS e França protestaram, pelo qual as ditas provas foram propostas.

Em 22 de Setembro de 1979 um satélite Vela detectou provas atómicas com artefactos de baixa potência próximo da ilha Príncipe Eduardo, pertencente à África do Sul, no Oceano Índico e todos os analistas dos principias países do mundo responsabilizaram pelas mesmas os governos da África do Sul e Israel.

Depois de 1979 os cientistas sul-africanos entregaram um projecto de armamento atómico aos engenheiros da ARMSCOR que se dedicaram a miniaturizá-la e prepará-la para ser usado como armamento em aeroplanos o em mísseis. http://www.fas.org/nuke/guide/rsa/nuke/ocp27.htm

1- Até que ponto a alta oficialidade cubana conhecia que o inimigo contava com armamento atómico?

2- Até que ponto o conhecimento de armamento atómico nas mão dos sul-africanos influiu na conduta das tropas cubanas em campanha em Angola?

3- Com que arma contavam as Forças Armadas de Cuba para enfrentar o armamento atómico sul-africano?

4- Em caso de serem atacados com armamento atómico que poderiam fazer?

Sabia-se que a África do Sul tinha efectuado provas nucleares e supúnha-mos que deviam estar preparando a arma nuclear. Mas de fazer ensaios a possuir uma arma nuclear vai muita distância e essa distância é ainda maior quando se trata de transportar essa arma até ao seu suposto destino.

Considero até que nível de primeiros oficiais isto era conhecido, mas em nenhum momento da campanha isto influiu no nosso ânimo. Nós não tínhamos capacidade para levar a cabo um ataque convencional contra a África do Sul e mal podíamos levar a cabo uma ofensiva que chegasse até a profundidade táctico-operativa em território namibiano.

Daí em diante era dificílimo continuar sem ao menos ter outro reforço em homens e armamentos (coisa muito pouco provável dadas as características políticas da época). Creio que essa é a razão pela qual não estávamos preocupados. Pois bem, a nossa preocupação consistia no que se iria a passar em caso da nossa ofensiva não desse resultado e nós víssemos na contingência de passar à defesa.

A verdade é que não contávamos com muito para contra-atacar armamento nuclear algum desde o ponto de vista da protecção humana a não ser os abrigos subterrâneos em alguns lugares, como por exemplo o Regimento de Helicópteros de Huambo, onde todos vivíamos debaixo de terra.

Muitos acampamentos cubanos tinham esta característica em 1988. Ora bem, a arma atómica é totalmente diferente ao que normalmente estamos habituados, uma vez que deixa uma área de radioactividade no epicentro da explosão e uma esteia a favor do vento que em dependência das variações deste também pode variar. No melhor dos casos se nos surpreendia no abrigo não tínhamos meios para determinar a radioactividade existente na superfície nem meios de protecção, etc. Enfim, são muitas as variantes. Não estávamos preparados para essa contingência.

Os sul-africanos tão pouco estavam preparados. Por tanto se tivessem pretendido atacar-nos, suponho que o teriam feito bem longe das suas tropas e do territorio da Namibia pelo que considero que os mais preocupados deviam ser aqueles que estavam em Missão Militar de Cuba em Angola (MMCA) em Luanda.

Ponho em dúvida que os sul-africanos estivessem decididos a utilizar a arma nuclear, a não ser que estivesse implicada a soberania do próprio território e não para defender o território de Namibia que fazia muito tempo, que por directo, não lhes pertencia. Naquelas circunstâncias não era político utilizar a arma atómica. Duvido também da capacidade da África do Sul para transportar sequer uma ogiva nuclear.

Por outra parte, a situação interna no próprio território sul-africano lhe era adversa ao governo e considero que chegaram à conclusão de que era melhor negociar para que os cubanos deixassem Angola e evitar um banho de sangue por demais desnecessário e sem benefícios posteriores. Enfim, a África so Sul tinha muito a perder em toda a ordem. Fidel Castro sabia-o perfeitamente e pressionou desta forma, procurando uma saída negociada.

No meu caso muito particular, estava convencido que quanto mais perto estivesse da linha da frente, menos me devia preocupar a utilização de bombas atómicas. Tinha e ainda tenho certas dúvidas da capacidade sul-africana (naquela época) de utilizar a arma nuclear por muitos motivos. Creio que o maior impedimento eram precisamente os Estados Unidos e os paises europeus que exerciam tremenda pressão para que isto não sucedesse.

A estratégia, sob o ponto de vista de Fidel Castro era correcta. Esta era a sua carta trunfo para negociar a retirada das tropas cubanas. Alguém pode imaginar o que teria sucedido se a situação se mantivesse até 1991? Sessenta mil cubanos destacados em Angola sem campo socialista nem União Soviética. Que teria acontecido?

No Flanco Sul Oriental da Frente Sul a situação era defensiva. No Flanco Sul Occidental era totalmente ofensiva. Dentro das estimativas que se fizeram, nunca esteve a possibilidade de que a África do Sul utilizava a arma nuclear durante uma ofensiva cubana até à profundidade operativa dentro do territorio da Namibia.

Pode dizer-se que sim, que nos salvamos por casualidade favorável, mas não pelo emprego da arma nuclear, mas pela cegueira dos políticos da época que não se davam conta de que a utopia socialista europeia estava chegando ao fim. Nisto Fidel Castro levou vantagem, bluffou e ganhou a retirada cubana seis meses antes de que começasse o "desmoronamiento" como ele gostava de dizer.

Por isso que esta é minha opinião e não pretendo que seja a verdade absoluta. Verdadeiramente, o que nos preocupava era atolarmo-nos, pois sabíamos que não podíamos contar com a ajuda soviética.

Desde princípios dos anos 80 os soviéticos não davam nada gratis aos angolanos. Estes tinham que comprar o armamento a preços muito altos. A comida escaceava e os angolanos não abasteciam os 30 mil cubanos de reforço que tinham chegado a Angola.

De onde Fidel Castro conseguia o dinheiro para manter um exército tão grande a tanta distância? Seria a droga? Existiria alguma ligação entre uma coisa e a outra?

Fidel Castro ordenou o ataque a Calueque que é uma represa que regula a entrada de água da hidroeléctrica de Ruacaná. Esta hidroeléctrica encontra-se na fronteira com a Namibia.

Depois do ataque os sul-africanos que até esse momento se encontravam reticentes em aceitar as condições cubanas, sentaram-se à mesa de negociações a conversar a sério e não levaram a efeito nenhum movimento de tropas ou executaram contra-golpe algum.

Poucos dias depois, como acto de boa vontade, Fidel Castro retirava os MIG-23BN do aeródromo de Cahama para Luanda. Isto significava que, ao menos com a aviação não se poderia atacar dentro do território da Namíbia.

Se não se parte da ideia que o governo cubano é Fidel Castro e que ele era o comando das tropas cubanas, nunca se poderá chegar a ter uma ideia do que acontecia em Angola.

Não se pode pensar em forma de regime democrático quando se trata de um regime totalitário tipo fidelista, ainda que muitos não o considerem assim, é o mais totalitário que já existiu no fenómeno chamado "socialista" que assolou o mundo durante o século XX, ficando essa reminiscência caribenha.

Os MIG-23BN chegaram a Angola como parte da manobra XXXI Aniversário, que consistiu no envio dos 30 mil homens de reforço.

Num prazo de 252 dias operaram 29 barcos de carga, transportando um volume de 57.253 toneladas de meios materiais e técnica e 18.000 passageiros de diferentes categorias em 144 voos.

Nessa ocasião, foi necessário realizar una operação de resgate em mar alto ao navio Las Coloradas, o qual ficou à deriva por avaria nas suas máquinas e foi rebocado pelo navio Violet Island debaixo de uma forte tensão já que ele transportava o esquadrão de MIG-23BN com material de manutenção.

O MIG-23BN não é um caça interceptor. É um caça-bombardeiro táctico de médio alcance capaz de transportar a arma nuclear, ainda que Cuba não se encontravam preparados para tal empenho.

É por isso que também se amplia a pista de Xangongo (antiga Roçadas), que está aproximadamente a 50 kilómetros da fronteira de maneira que os nossos caças-interceptores MIG-23ML pudessem dar cobertura e apoio aos MIG-23BN.

O desgoverno cubano tinha pleno conhecimento das actividades nucleares sul-africanas. O desgoverno cubano valorizou que o governo sul-africano não se atreveria a utilizar esse tipo de armamento debido às consequências negativas que lhe adjacents trariam.

Fidel Castro estava disposto a invadir a Namibia. Nenhum general do mundo cubano em Angola se opôs a executar dita orden. Nenhum general cubano tem coragem para discutir uma orden de Fidel Castro.

Em Juventude Rebelde de 02.12.2005: "Entretanto eram os comboios de barcos mercantes, de brigadas de tanques completas. Se desapareciam numa noite de Cuba, porque já havia satélites. Formou-se uma força de 40.000 tropas, divididos em agrupamentos de cerca de mil, se por acaso lhes ocurria fazer um ataque nuclear (palabras de Fidel Castro)".

Podesse ter sido utilizado o armamento atómico sul-africano, primeiro contra Luanda e posteriormente contra as tropas cubanas que avançavam pelo Flanco Occidental da Frente Sul?

Em todo o momento tratei de colocar-me em tempo e espaço (talvez não o tenha conseguido), mas essa foi a minha intenção e não entrar a argumentar à distância de tantos anos.

Para aqueles que de uma forma ou outra, tivemos a oportunidade de estudar a arma atómica (nas academias soviéticas) sabíamos das dificuldades que estavam adjacentes à utilização da dita arma.

Pouco se sabe das consequências derivadas de uma explosão nuclear e suas sequelas que podem afectar não só os inimigos, como também os amigos. As contradições que pudessem ter existido entre os generais cubanos e Fidel Castro não incidiam directamente na evolução das acções combativas.

Agora podemos dizer que a ofensiva ao território controlado pela África do Sul (Namibia) teria sido um bluff, naquela época ninguém podia afirmar tal coisa. Pelo contrário. Os primeiros oficiais tiñamos a convicção de que a ofensiva começava em qualquer momento a partir do último trimestre de 1988.

O general Arnaldo Ochoa considerava que era impossivel desenvolver acções combativas contra o territorio da Namibia por várias razões. Entre elas estava a extensão territorial e a impossibilidade de suster do ponto de vista logístico a ocupação do territorio. Este é um aspecto sobre o qual Fidel Castro nunca se referiu. Com que c…se ia sentar a barata?

O general Ochoa sabia, perfectamente que já os rusos não estavam de bem com Fidel Castro. Naquele tempo, Fidel Castro não perdia a oportunidade de criticar tudo quanto faziam os russos (refiro-me a Glanost e a Perestroika). A inteligencia russa fazia muito tempo que não compartilhava informação com a cubana e se o fazia era de forma desinformativa.

Isto foi fácil de advertir quando em Granada, o Golpe de Estado contra Bishop foi totalmente de esquerda e em combinação com a inteligencia soviética. Nessa oportunidade Fidel Castro viu-se mais só e perdido que Llanero Solitario (Lone Ranger), visto que a ele, o homem mais bem informado do mundo lhe tinham dado gato por lebre. Creio que foi um dos papeis mais ridículos de toda a sua história.

Não posso afirmar nem negar que Fidel Castro tivesse informação (da inteligência soviética) sobre as armas nucleares sul-africanas. O que posso dizer sim é que Fidel Castro é uma das pessoas melhor informadas do mundo e como tal, não duvido que tivesse informação por qualquer via. Não obstante uma das principias características dele, é de decifrar, a seu favor, quanta informação chegue às suas mãos. Portanto não duvido que a tivesse.

De maneira que se tinha essa, também tinha que os Estados Unidos, a ex-URSS e todos os países que mantinham alguma influência política ou económica sobre o governo da África do Sul, estavam fazendo o impossível para que dessem garantias de que não utilizariam a arma nuclear em nenhum caso, dado que as tropas cubanas não constituiam uma ameaça directa para a segurança territorial da África do Sul e fazia mais de 10 anos que o territorio da Namibia, oficialmente, tinha deixado de ser um protectorado da África do Sul. Por outra parte, ficava claro que a independencia da Namibia seria, durante muito tempo, só política e a economia mantinha-se controlada pela África do Sul.

Que Fidel Castro estava decidido a que as tropas cubanas penetrassem em território namíbio, SIM. Nenhum dos oficiais, dos que estávamos em Angola tinhamos dúvidas. As ordens eram bem claras. Se os sul-africanos tivessem lançado uma bomba atómica, além da quantidade de mortos, a história seria outra.

Que se passaria se as tropas cubans entrassem em territorio da Namibia e os sul-africanos tivessem uma resistência efectiva sem lançar nenhuma bomba atómica e além disso se negassem a continuar conversando e passados nove meses começam a cair (muro de Berlim incluído) um atrás do outro os países socialistas?

Muitos mortos cubanos, por fome em combates nos quais não pudessem defender-se por carecer de armamento e munições, combustível, etc. Teria sido no melhor dos casos o empantanamento de 60.000 homens além oceano y sem posibilidades de salvação alguma. Não sei o que fizesse a África do Sul com tantos prisioneiros, uma vez que os cubanos não são fanáticos (ver en Granada, nenhum morreu abraçado à bandeira, como teria querido Fidel Castro).

Essa era a minha maior preocupação, enquanto se dilatavam, no tempo as conversações. Empantanados sem poder sair dali.

Quanto Gorbachov esteve em Cuba e não aceitou a Orden José Martí e vimos pela TV Gorbachov numa varanda e Fidel Castro abaixo (como se fosse uma cena de Romeo e Julieta), a todos nos ficou claro que a União Soviética não estava interessada em continuar a aventura de Angola, nem da Nicaragua e muito menos em São Salvador.

Procurando elementos sobre o tema da influência das armas atómicas sul-africanas sobre o fim da guerra em Angola, procurei o livro de Enrique Ros "La Aventura Africana de Fidel Castro". O autor, membro da brigada 2506 e pai da Congressista Ileana Ross-Lehtinen, não sendo testemunha presente dos acontecimentos, faz um árduo esforço para recompilar referências bibliográficas dispersas sobre as intervenções militares Cubanas em África desde o princípio dos anos 60 até 1989.

Chamou a minha atenção que, pese a sua extensa documentação bibliográfica, sucede o mesmo que na obra de Juan Benemelis, não há menção do armamento atómico sul-africano. Revisei o livro de Chester Crocker, antigo Asistente do Secretário de Estado para Asuntos Africanos "High Noon in Southern Africa, Making Peace in a Rough Neighborhood" escrito em 1992 e incrivelmente não encontrei nenhuma referência sobre a influência do armamento nuclear sul-africano no processo de negociações que chegou ao acordo de 1988.*

Tradução livre.